Conversas que deveríamos ter 💬


       Eu só fui diagnosticada com Asperger muito adulta. Com mais de 30 anos. E fiquei por algum tempo me perguntando como pude ter passado tanto tempo sendo mal compreendida, inclusive por mim. Como curiosa que sou, andei pesquisando e descobri algumas coisas que são importantes trazer à tona. Você sabia, por exemplo, que é muito mais difícil diagnosticar autismo em meninas? Simplesmente pelo fato de que temos mais facilidade de esconder nossas emoções e sentimentos por sermos educadas para tal? E pelo fato de que “normalmente”, são mais meninos que são identificados com autismo, e que por isso, as técnicas de diagnóstico nem sempre se encaixam às mulheres? Pois é!

E isso tudo me levou a uma série de reflexões sobre  minha vida… Quantas conversas nós temos em família sobre o que estamos sentindo? Quantas vezes permitimos que as emoções realmente saiam do corpo, sejam acolhidas e então resolvidas? E mais: quantas vezes realmente aceitamos ao invés de menosprezar aquilo que chega especialmente de crianças? 

Não estou aqui fazendo uma carta aberta de “filha mais maltratada do mundo”. Pelo contrário! Justamente porque tive pais amorosos e presentes é que reforço o quanto isso é importante: porque nem “nas melhores famílias” a gente está pronto para este tipo de conversa. A gente acha que tudo faz parte do quadro de crescimento - e se pensar, realmente faz - mas não percebe os sinais que poderiam nos levar a um diagnóstico correto e autoconhecimento o mais cedo possível em nossa vida.

Tem um exemplo muito bom que posso usar para isso. Um dia, meu pai brigou comigo porque eu não olhava para ele quando ele me explicava alguma coisa. Ele dizia que eu ficava olhando para os lados e que isso parecia deboche e desrespeito. E eu acreditei, mas como não conseguia encará-lo nos olhos, passei a olhar para baixo toda vez que ele falava sério. E isso me deu uma sensação de inferioridade bastante grande. Como se eu não pudesse responder. E não tinha a ver com isso. A intenção dele era provavelmente a oposta: que nós pudéssemos trocar, nos olhar nos olhos, e dividir. Mas isso simplesmente não era claro pra mim e era uma dificuldade real. 

Até que certa vez, um garotinho que gostava de mim na sexta ou sétima série me chamou e perguntou claramente: “por que você não consegue olhar pra mim quando falo com você?”. Prova do quanto aquilo me marcou é que lembro a cena até hoje. E lembro que levantei os olhos, olhei os olhos dele e respondi: “porque não.” e fui embora. Mas só a partir daquele momento eu percebi que isso não era algo que eu fazia apenas numa situação de atenção, apreensão ou seriedade. Eu fazia isso sempre. E foi só a partir dali que eu comecei a me forçar a olhar algumas pessoas nos olhos. Devo inclusive ter assustado bastante gente com isso!

Mas, em linhas gerais, o que eu quero dizer é para que não tomemos nada como automático, garantido ou comum sem conversar sobre isso antes em nossas famílias. Alguém não te olha nos olhos? Tente entender, com calma, se há algum incômodo. Alguém não se abre com você? Tente perguntar se existe alguma outra forma de comunicar que possa funcionar. Tragam para a mesa não só quais emoções se estão sentindo, mas o que são essas emoções. O que são esses sentimentos. Debatam sobre como cada um da família enxerga essas reações humanas. Quais importam pra uns, quais importam pra outros… Esse tipo de proximidade pode reduzir verdadeiros abismos entre todos, mas especialmente entre um indivíduo e ele mesmo.

É essencial que se possa conversar sobre as diferenças, que se possa ser acolhido, e especialmente, que se possa entender que nem sempre tudo faz sentido. Nem sempre o que o outro traz pode ter alguma lógica pra você. Pode ter algum significado ou explicação… Mas se importa pra ele, e você o ama, que importe a você também, pelo menos a ponto de respeitá-lo.  Faz sentido?  É que nem sempre eu faço, mas isso eu explico no próximo encontro. Até lá!


Dannie K.



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