Lembranças nem tão estranhas assim 💭


Era uma vez o guarda-roupas lá de casa. Eu pegava o bichinho de pelúcia, uma lanterna e a Enciclopédia do Estudante para Crianças (ou um livro do Monteiro Lobato) e me enfiava nele. Ficava horas ali. Era meu lugar favorito. E era assim com todos os lugares pequenos, sem muita gente, onde eu podia criar meu próprio mundinho. Ali eu me esquecia. E é justamente isso que me faz lembrar do papel da minha memória na minha vida.
Começamos do fato que minha memória é irritante. De verdade! É capaz de eu te dizer o dia da semana que alguma coisa aconteceu, mesmo que isso tenha sido há 25 anos. Eu lembro nitidamente das casas que morei, da feição das pessoas, das frases que elas falaram. Das 17 mexericas que comi com a minha madrinha numa única tarde, quando eu tinha 6 anos, ou dos campos do primeiro formulário que eu preenchi. Eu posso até me perder, mas sempre reconheço um lugar no qual eu já estive. As letras das músicas duram uma eternidade e os filmes também. E existem sensações físicas que eu consigo reproduzir com uma veracidade que até eu me assusto. Isso tudo porque minha memória é meu mecanismo de proteção. Eu não entendia isso antes. Mas hoje é claro como água.
Quando eu estava naquele guarda-roupas, eu “esquecia” de tudo e só me “ligava” novamente se houvesse ruídos externos. Se não, eu ficava protegida ali. Porque quando eu saía, imediatamente, começava a racionalizar. Minha cabecinha infantil e imaginativa parava de criar e ficava mapeando exatamente o que aquelas pessoas estavam fazendo. Se brincávamos de blocos, eu ficava contando quantos, de que cores e formatos cada um estava usando, pra entender o que estavam fazendo e garantir que nada se perderia. Se um adulto dizia algo que eu não entendia, eu repassava trinta mil vezes a frase na minha cabeça até que outra coisa que eles dissessem fizesse algum sentido. Se por acaso eu fizesse alguém rir, eu insistia na brincadeira ou no texto pra ver até que horas aquilo seria legal. Por sinal, me sentia mal quando deixava de ser…
E esses mapeamentos iam se organizando em caixinhas na minha cabeça. O que repetir. O que evitar. Quem conviver. Quem afastar. E às vezes isso me dava muitos nós também. Afinal, pessoas da caixinha “conviver” faziam coisas da caixinha “afastar”. E não estou falando de ações impactantes não. Um simples carinho com movimentos repetitivos na cabeça está registrado até hoje na minha mente, 30 anos depois do ocorrido. Se eu pensar um pouquinho, sinto o dedo da pessoa no mesmo lugar do meu couro cabeludo e a tensão do meu corpo, que ficou de boca fechada porque sabia que deixar a outra pessoa frustrada era coisa da caixinha “evitar”.
Você pode até se perguntar: oras, mas não é excelente ter tudo isso mapeado e identificado? E infelizmente, não, não é. Primeiro porque eu errava muito nessa interpretação. Por exemplo: sempre fui extremamente literal e demorei anos pra entender metáfora. Lembro de várias piadas na escola que não tinham o menor sentido pra mim e me faziam ser motivo de mais piada ainda. E quando o assunto é linguagem corporal, então, nem se fala.
Se você conversar comigo e olhar pro meu cabelo, eu vou correr pra verificar se ele não ficou verde ou todo arrepiado. Se você encarar por dois segundos um ponto da minha roupa, eu vou achar que rasgou. E se você ficar me olhando nos olhos enquanto eu falo, eu não vou conseguir formular as frases porque as múltiplas interpretações do seu silêncio somado à sua observação vão gritar muito mais alto que minha concentração! Você faz ideia de quantas pessoas já reclamaram do fato de eu estar falando com elas enquanto olhava pra outro lugar?
E segundo porque a bagunça dessas memórias é o que despertam minhas crises mentais. Quando as minhas caixinhas ficam fora de ordem, quando eu descubro que uma memória estava no lugar errado, quando eu não sei em qual caixinha colocar aquela experiência, quando eu não sei em que caixinha eu estou naquele momento, aí o bicho pega. A irritação vem com tudo, o corpo sente e acontece uma série de fatores que eu ainda vou te contar por aqui.
É claro que quando elas estão em ordem, o bem-estar é imenso. Me sinto capaz de tudo nesse mundo. Me sinto com vontade de socializar, escrever, produzir qualquer coisa. É quase como se a mente estivesse limpa pra conseguir ser usada novamente. É uma sensação “grátis”, que essas minhas memórias são capazes de produzir, como se fosse um lindo dia de céu azul. Só que esses dias lindos não acontecem sempre. E ainda que amanheça puro sol, o tempo pode fechar rapidinho. Mas pra não misturar minhas caixinhas, deixo pro nosso próximo papo, combinado? Assim a gente vai junto desanuviar um dia complicado. Até lá!


Dannie K.



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